A crise entre bolsonarismo e Supremo, aberta ainda em 2019 com o inquérito das fake news, ajudou a criar um eixo político duradouro: de um lado, a defesa institucional da Corte; de outro, uma base que passou a enxergar o STF como símbolo de excesso e perseguição.
Esse conflito virou combustível eleitoral para a direita, especialmente após a condenação e a prisão de Jair Bolsonaro, que reforçaram entre aliados a narrativa de confronto com o sistema.
Esse ambiente ajuda a explicar por que Flávio Bolsonaro ganhou densidade política e aparece hoje em cenário competitivo. Pesquisas recentes mostram empate técnico com Lula em simulações de segundo turno, sinal de que o capital político do bolsonarismo continua vivo mesmo após a queda do ex-presidente.
Mas esse ganho vem com uma conta embutida: quem cresce surfando indignação institucional depois precisa provar que sabe administrar o Estado real, com freios, crises e pressão permanente.
É aí que mora o risco para um eventual governo Flávio Bolsonaro. A régua da base bolsonarista subiria muito. O eleitor que compra discurso de enfrentamento ao Supremo, às elites e ao establishment tende a exigir respostas rápidas, dureza política e fidelidade total à retórica de campanha.
O problema é que governar exige negociação, contenção de dano, coordenação institucional e capacidade de absorver desgaste — justamente pontos em que o governo Jair Bolsonaro teve dificuldades recorrentes em momentos de crise. Essa é uma inferência política baseada no padrão de cobrança criado pela própria radicalização do conflito.
Na prática, a crise com o Supremo fortalece o bolsonarismo como movimento de oposição e resistência. Mas, se esse capital virar governo, pode se transformar em armadilha: quanto mais se promete ruptura, menor fica a margem para errar, recuar ou administrar a frustração da própria base.
O bolsonarismo ganha no conflito, mas um futuro governo seu precisaria mostrar algo que até aqui ainda não demonstrou de forma estável: capacidade de governar crise sem viver dela.
Fontes: STF, Reuters, AP
