Um estudo realizado pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), em colaboração com a Croplife Brasil — associação que congrega empresas do setor de biotecnologia, melhoramento genético e defensivos agrícolas — alerta que as lavouras de soja no Brasil podem sofrer perdas de até 55% na produtividade se não forem protegidas contra pragas, doenças e ervas daninhas.
A pesquisa destaca que essa redução na produção pode causar impactos significativos na economia brasileira e influenciar os preços dos produtos para o consumidor.
Impactos da falta de proteção
Os dados da pesquisa indicam que a ausência de medidas de controle fitossanitário pode gerar a necessidade de cultivar uma área adicional de 33,5 milhões de hectares, o que equivale a quase toda a extensão do estado de Goiás. Isso se traduz em uma perda média de 121,3 milhões de toneladas de soja, com um valor estimado de R$ 223,5 bilhões. No cenário em que ocorra o controle ideal, a receita brasileira com exportações de soja poderia alcançar US$ 44,2 bilhões. Entretanto, sem essa proteção, esse número despencaria para US$ 26,6 bilhões, resultando em uma diferença de US$ 17,6 bilhões por safra.
A pesquisa também aponta uma possível alta de até 49% no preço da soja, o que poderia acarretar um aumento de cerca de 0,26 ponto percentual na inflação oficial, medida pelo IPCA, devido aos efeitos nos preços de produtos derivados, como óleo, leite e ovos.
“A redução da produtividade da soja, lá no produtor, acaba tendo um impacto significativo no preço da soja e na disponibilidade dos produtos no mercado final, por exemplo, de óleo de soja e do farelo, que é um subproduto da soja. Consequentemente, ia ter uma mudança no preço das carnes, como as de porco e frango, porque tudo isso está na cadeia de produção da soja”, explica Ana Carolyne Carvalho, pesquisadora da UFV.
Métodos de controle fitossanitário
O estudo realizado pela UFV investiga quatro métodos de controle fitossanitário que podem ser aplicados para evitar perdas nas lavouras: biotecnologia (como organismos geneticamente modificados), melhoramento genético, bioinsumos e defensivos químicos, além do manejo integrado, que combina dois ou mais desses recursos.
Uma análise do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela que o uso de defensivos químicos no Brasil cresceu 4,4 vezes entre 2003 e 2023, passando de 180 mil toneladas para 800 mil toneladas anuais. Atualmente, o Brasil é o país que mais utiliza agrotóxicos por hectare, com uma média de 10,9 quilos por hectare, quatro vezes mais que os Estados Unidos e cinco vezes mais que a China.
“Os defensivos químicos podem apresentar riscos à saúde humana, incluindo efeitos agudos e crônicos, dependendo da toxicidade das substâncias e dos níveis de exposição. No ambiente, podem contaminar solos e recursos hídricos, afetando organismos não alvo, como polinizadores e organismos aquáticos, com consequências para a biodiversidade”, alerta Robson Barizon, pesquisador da Embrapa.
Barizon ressalta que organismos geneticamente modificados (OGM) podem tanto diminuir o uso de agrotóxicos quanto aumentar sua aplicação, dependendo das características das plantas. Enquanto algumas variedades são resistentes a doenças e pragas, outras podem ser tolerantes a herbicidas, levando os produtores a aumentar a dosagem de defensivos químicos.
“No caso dos OGM, aprovados para comercialização, não existem evidências científicas robustas de riscos adicionais à saúde humana associados ao seu consumo. Os possíveis impactos ambientais estão relacionados principalmente às características da modificação genética e às práticas agrícolas associadas”, complementa Barizon.
Pedro Duarte, coordenador de Sustentabilidade da Croplife, expressa a preocupação do setor em relação à segurança dos produtos químicos utilizados na proteção das lavouras. “Para que um produto seja aprovado no Brasil, ele passa por muitos estudos. Há um investimento significativo do setor para garantir a segurança dos produtos quando aplicados conforme as recomendações”, afirma Duarte.
Dados do Ipea indicam que, de 2005 a 2019, foram registrados 3.151 novos agrotóxicos no Brasil, sendo apenas 20% considerados de baixa toxicidade. Após a promulgação da nova Lei dos Agrotóxicos (Lei 14.875/2023), o número de registros aumentou significativamente, com 663 novos produtos liberados em 2024, superando os 555 registrados em 2023.
Por fim, informações do Ministério da Saúde, divulgadas pela ONG Repórter Brasil, apontam que entre 2015 e 2025, foram registrados 73.391 casos de intoxicação por agrotóxicos no Brasil, sendo 9.729 apenas no ano passado.


