Desafios do agronegócio para o próximo presidente a partir de 2027

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O próximo presidente enfrentará desafios como endividamento e seguro rural no agronegócio a partir de 2027.

Entenda as demandas.

O próximo presidente da República, que assumirá em 2027, terá como um de seus principais desafios recuperar a capacidade de investimento dos produtores e ampliar a proteção contra perdas no setor agrícola. A agenda do agronegócio se apresenta como um misto de questões financeiras, que incluem o endividamento e o acesso ao crédito, além de demandas estruturais ligadas à mão de obra, inovação e à integração entre produção e conservação ambiental.

Essas demandas foram levantadas por investidores, produtores e representantes do setor ao longo dos últimos dez meses, com destaque para as preocupações acerca das recuperações judiciais e dos altos valores das apólices de seguro, que levaram os agricultores a reduzir seus investimentos. Assim, a proteção rural se torna uma questão crucial para o próximo ciclo.

Endividamento do setor

Os números indicam um cenário preocupante. De acordo com um levantamento do Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada) da Esalq/USP, a carteira problemática do crédito rural alcançou R$ 205 bilhões em agosto de 2026, representando 23,8% do total de crédito rural no ano. A Frente Parlamentar Agropecuária (FPA) estima que o endividamento do agronegócio já ultrapassou a marca de R$ 1 trilhão.

No que se refere ao crédito rural destinado a pessoas físicas, a inadimplência saltou de 0,8% em dezembro de 2022 para 9,7% em agosto de 2026, conforme dados do Cepea. Esse aumento é atribuído ao encarecimento dos financiamentos, mudanças nas fontes de recursos e à concentração de dificuldades em determinadas atividades e regiões. A taxa média de juros do crédito rural para pessoas físicas aumentou de 6,3% para 12,2% ao ano entre 2021 e 2025, o que resultou em um aumento da despesa com juros, passando de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões no mesmo período.

Assim, a nova gestão enfrentará o desafio de conciliar soluções para o passivo financeiro com condições de financiamento que garantam a continuidade da produção e dos investimentos no setor.

Crédito e Plano Safra

O governo que assumir em janeiro encontrará o Plano Safra 2026/27 já em execução e precisará preparar o programa do próximo ciclo, que está orçado em R$ 610 bilhões, conforme informações do Ministério da Agricultura e Pecuária. Deste total, R$ 525,1 bilhões foram designados para a agricultura empresarial, visando custeio, comercialização e investimentos na atual safra.

Além do tamanho do Plano Safra, a discussão se estende a questões como juros, garantias exigidas pelos bancos e a disponibilidade de recursos no período de plantio.

Seguro rural e adaptação climática

A proteção contra perdas também será uma prioridade na agenda de 2027, especialmente considerando que a cobertura tem diminuído. O relatório do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) indicou que apenas 42 mil produtores foram beneficiados em 2025, em comparação a 86,4 mil em 2024. A área coberta por seguros rurais ficou em aproximadamente 3,2 milhões de hectares, com um total de R$ 17,8 bilhões em capitais segurados.

Em 2024, as operações apoiadas pelo programa abrangiam 7,27 milhões de hectares. Vale ressaltar que esses números referem-se a apólices com subvenção federal e não representam o total de seguros contratados no Brasil. O orçamento aprovado para o PSR em 2025 era de cerca de R$ 1,06 bilhão, mas sofreu cortes de aproximadamente R$ 428 milhões, resultando em um total de R$ 565,4 milhões aplicados em subvenções.

A adaptação climática vai além do seguro e envolve práticas de manejo do solo, gestão hídrica, diversificação produtiva e pesquisa em variedades resistentes. O Relatório de Estabilidade Financeira de maio de 2026, divulgado pelo Banco Central, registrou que instituições financeiras relataram impactos de secas, enchentes e tempestades sobre o crédito rural, embora a inadimplência no setor tenha múltiplas causas, não sendo possível atribuir a totalidade a fatores climáticos.

Mão de obra e remuneração

A atração e qualificação de trabalhadores representam outra frente de desafios. A discussão envolve remuneração e condições de trabalho, além da necessidade de modernização, que exige profissionais capacitados para operar máquinas e utilizar novas tecnologias. Um levantamento do Cepea e da CNA revelou que a média mensal real no agronegócio foi de R$ 2.972 no segundo trimestre de 2026, com um aumento de 3,7% em relação ao ano anterior. Este valor considera atividades de insumos, produção primária, agroindústria e serviços.

A dificuldade em reter profissionais qualificados no campo é acentuada pelos salários competitivos oferecidos em setores urbanos, como serviços, comércio e indústria.

Vulnerabilidades geopolíticas

A dependência de insumos estrangeiros, especialmente em fertilizantes, destaca uma vulnerabilidade no abastecimento do setor. O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes utilizados, o que torna a produção suscetível a oscilações cambiais e às condições do comércio internacional. A diversificação de fornecedores, o fortalecimento da produção nacional e a melhoria na eficiência do uso de nutrientes são questões essenciais. O avanço dos bioinsumos pode contribuir para sistemas produtivos mais eficientes, mas deve ser analisado conforme as necessidades específicas de cada cultura.

Além disso, para manter os parceiros comerciais e garantir que a balança de exportação de produtos agropecuários permaneça favorável, será necessário um olhar atento às exigências ambientais e sanitárias globais. A integração ambiental deverá incluir a regularização das propriedades e a adoção de práticas produtivas sustentáveis, com desafios relativos à análise do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e à implementação dos Programas de Regularização Ambiental (PRA) para alcançar padrões internacionais.

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