A produção de soja no Brasil poderá sofrer uma queda de 17,6 milhões de toneladas, representando uma redução de aproximadamente 9,7%, na safra 2026/27, conforme um levantamento realizado pela Serasa Experian.
Em um cenário de forte atuação do fenômeno climático El Niño, a produção pode atingir 163,6 milhões de toneladas, em comparação com 181,2 milhões de toneladas projetadas para uma condição climática neutra.
Os dados do estudo foram apresentados por Daniel de Oliveira, gerente de Geoprocessamento Agro da Serasa Experian, durante uma coletiva de imprensa realizada nesta terça-feira (27). O levantamento baseia-se em informações climáticas, modelos de previsão e dados territoriais das safras mais recentes.
Oliveira destacou que os dados sugerem a possibilidade de um retorno significativo do El Niño na safra 2026/27, embora o estudo não deva ser interpretado como uma previsão de perdas concretas. O principal objetivo é avaliar os riscos para a produção, caso as condições climáticas observadas em episódios anteriores se repitam.
Produtividade sob risco mesmo com área plantada maior
A pesquisa da Serasa Experian projeta que a área destinada ao cultivo de soja no Brasil deve alcançar 49,9 milhões de hectares na safra 2026/27, um aumento de quase 1 milhão de hectares em relação à temporada anterior, o que corresponde a um crescimento de 1,8% em comparação com a safra 2025/26.
No cenário de El Niño forte, a produtividade média esperada é de 3.282 quilos por hectare, equivalente a 55 sacas. Em contrapartida, em um cenário neutro, a expectativa é de um rendimento de 3.622 quilos por hectare, ou 60 sacas. Essa diferença de 340 quilos por hectare, aplicada à área projetada, resulta na estimativa de 163,6 milhões de toneladas no cenário de El Niño e 181,2 milhões no cenário neutro.
A análise se baseia na safra 2023/24, que foi marcada por um El Niño intenso, onde a produtividade da soja foi de 3.282 quilos por hectare, 9% inferior ao que foi registrado em 2024/25, considerado um ano de neutralidade climática.
A relação entre o fenômeno e a produtividade é atribuída a alterações nos padrões de chuva e temperatura, que impactam diretamente o desenvolvimento das lavouras. No entanto, esses efeitos são variáveis, dependendo da região e das condições específicas de cada ciclo agrícola.
Consequências econômicas estimadas em R$ 33 bilhões
A diferença de 17,6 milhões de toneladas entre os dois cenários também foi utilizada para calcular o impacto econômico potencial. O estudo aponta que o valor bruto da produção (VBP) poderá ser afetado em cerca de R$ 33 bilhões.
Para essa estimativa, a Serasa Experian utilizou um preço médio de aproximadamente R$ 1,88 mil por tonelada, obtido a partir do VBP da soja dividido por um volume de 181,5 milhões de toneladas. Este valor médio foi multiplicado pela diferença de produção esperada no cenário de El Niño forte.
A instituição enfatiza que esse resultado é uma análise de dimensionamento e não uma previsão de perdas financeiras concretas. A possível redução na oferta nacional pode também influenciar os preços da soja e as condições de comercialização, alterando o cenário econômico para produtores e demais agentes da cadeia produtiva.
Redistribuição do risco entre as regiões
De acordo com Oliveira, a “anomalia climática redistribui o risco que, normalmente, é concentrado no Rio Grande do Sul”. As previsões regionais indicam que o Centro-Oeste deve concentrar a maior parte da redução na produção no caso de um El Niño forte. Mato Grosso, por exemplo, teria uma redução de 9,7 milhões de toneladas em comparação com o cenário neutro, enquanto Goiás teria uma diminuição estimada em 4 milhões de toneladas.
Juntos, esses estados representariam quase 80% da diferença de produção projetada para o país. Por outro lado, o Rio Grande do Sul poderia experimentar um aumento de produção de 5,5 milhões de toneladas no cenário de El Niño forte, embora isso não seja suficiente para compensar as perdas no Centro-Oeste. No estado gaúcho, as condições de umidade têm dificultado a implementação das lavouras.
Além disso, os possíveis efeitos podem variar entre as culturas e os períodos de cultivo. Embora o estudo tenha se concentrado apenas na soja de primeira safra, as culturas de segunda safra também podem enfrentar impactos maiores, dependendo do calendário agrícola e das condições climáticas ao longo do ciclo.


