Regulamentação da cannabis medicinal no Brasil ainda enfrenta desafios, segundo associações

Mais Notícias

As associações de pacientes reconhecem os avanços na regulamentação do uso de cannabis medicinal no Brasil, mas enfatizam a urgência de definir com mais clareza aspectos como cultivo, controle sanitário e a posição da planta na agricultura familiar. O tema foi abordado na última sexta-feira (18) durante a 2ª edição da feira Febre de Arte, realizada em Fortaleza.

Debates sobre incertezas e apreensões

No primeiro painel de debates, representantes de diversas associações expressaram a incerteza que permeia suas atividades, citando exemplos de apreensões de encomendas e destruição de plantações pela polícia, que serviam como insumos para medicamentos. A paralisia nos debates e ações concretas desde a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 1.014 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) tem sido vista como um empecilho significativo para o setor, conforme apontaram participantes do II Encontro Nacional Nordestino de Associações Canábicas (II Enac).

O diretor jurídico da Associação Canábica Florescer (Acaflor), Maurício Gomes, ressaltou o prazo de cinco anos estabelecido para a adaptação das associações ao novo cenário e criticou a transferência de responsabilidades do Poder Judiciário para a Anvisa. “Quem está batendo na nossa porta não é a vigilância sanitária, é a polícia”, declarou Gomes. O técnico da coordenadoria de vigilância sanitária do Ceará, Antônio Carlos Araújo Fraga, manifestou preocupação com a relutância de alguns colegas em realizar fiscalizações adequadas e reconheceu a insegurança gerada pela ausência de orientações práticas. “Mesmo sem a regulamentação, não vai se saber o que fazer”, afirmou.

Fraga considerou este ano inovador para a vigilância sanitária devido ao marco regulatório, que é fruto de movimentos sociais. Ele sugeriu que as associações busquem dialogar com a Anvisa para apresentar suas demandas por meio do canal de agendamento de audiências.

Participação da Anvisa e pesquisas sobre cannabis

A Anvisa, por sua vez, informou ter garantido a participação social na elaboração das resoluções, com um total de 29 consultas realizadas com associações de pacientes e a comunidade científica. A agência também analisou experiências internacionais e considerou 47 trabalhos de 139 pesquisadores, sendo 41 oriundos do Brasil. A WeCann Academy, uma rede internacional de especialistas, anunciou a realização do WeCann Summit em Campinas em 2024, que será o maior Congresso de Medicina Endocanabinoide do mundo. A comunidade canábica, no entanto, questiona a seleção dos dados compilados, destacando a falta de clareza sobre o modelo definitivo de cultivo, critérios técnicos e limites de THC.

Convidados dos painéis do evento apontaram que a dificuldade das autoridades em criar normas abrangentes para todas as organizações canábicas, e não apenas para a indústria, é um fator que contribui para as lacunas existentes na regulamentação. Para Akemy Viana Pinheiro, colaboradora da Acura, as associações não têm interesse em evitar a supervisão de suas produções e distribuições, defendendo um controle rigoroso dos medicamentos. Ela mencionou a Resolução nº 7/2026 do Conselho Federal de Farmácia, que estabelece como os farmacêuticos podem contribuir para atingir padrões de qualidade.

Agricultura familiar e condições de trabalho

O anuário da Kaya destacou o trabalho do Instituto Tricomas, que busca facilitar o acesso a medicamentos à base de cannabis por meio da agricultura familiar regenerativa. Durante as mesas de debate, também foram discutidas as condições de trabalho nas entidades do setor. Isabela Luiza, porta-voz da Adapta, afirmou: “A gente quer ter tudo regularizado, como qualquer outro prestador de serviço”.

Dados sobre o setor canábico no Brasil

O Anuário de Cannabis Medicinal 2025, da Kaya Mind, contabiliza 315 associações em atividade, que promovem pesquisas e oferecem serviços especializados, incluindo cuidados com animais, idosos e crianças. O documento ainda menciona 27 hectares de cultivo e 47 associações que buscam autorização judicial para o plantio de cannabis. Atualmente, há 873 mil pacientes canábicos registrados no Brasil.

Eventos e regulamentações recentes

A feira Febre de Arte, realizada no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, apresenta uma programação diversificada com atividades de inovação, educação e gastronomia, organizada pela Agência Liamba 360º, Ghost Produtora e BTO. A RDC 1.013/2026 detalha a produção de cannabis, prevendo uma Autorização Especial (AE) para pessoas jurídicas e estabelecendo medidas de controle e segurança. Já a RDC 1.014/2026 cria um ambiente regulatório experimental para associações sem fins lucrativos, proibindo a comercialização de produtos, e a RDC 1.015/2026 amplia o marco regulatório para incluir pacientes com doenças debilitantes e produtos com THC acima de 0,2%.

Outras Notícias

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

spot_img

Artigos Relacionados