Cancelamentos se tornam mais breves e menos impactantes, afirmam especialistas

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Os cancelamentos, fenômeno amplamente discutido nas redes sociais, têm se tornado cada vez mais breves e menos prejudiciais para os afetados, segundo especialistas em comunicação.

A análise surge em um contexto em que as mobilizações coletivas contra figuras públicas se tornaram comuns, mas seus efeitos têm se mostrado menos duradouros ao longo do tempo. Um exemplo marcante ocorreu em fevereiro de 2021, quando a cantora Karol Conká foi eliminada do Big Brother Brasil 21 com 99,17% dos votos, um recorde histórico. Após a saída do programa, a artista relatou que familiares passaram a receber ameaças.

Mais recentemente, em julho de 2023, Viih Tube e Eliezer, também ex-participantes do programa, enfrentaram ações do Ministério Público do Trabalho (MPT) após promoverem uma competição entre empregados domésticos. Três meses após essa repercussão, Viih Tube anunciou um curso voltado para criadores de conteúdo, demonstrando que os impactos do cancelamento não foram tão severos quanto em anos anteriores.

Transformações nas redes sociais

Esses dois episódios exemplificam a evolução da cultura do cancelamento nos últimos cinco anos, período marcado por profundas transformações nas redes sociais. De acordo com Carol Govari, doutora em comunicação e pesquisadora do assunto, “o cancelamento não perdeu força, mas passou a operar de forma mais fragmentada e acelerada, ligado a perfis de fofoca e fandoms que transformam controvérsias em engajamento”. Apesar das críticas dirigidas a Viih Tube e Eliezer, a possibilidade de perdas substanciais como contratos e credibilidade parece ter diminuído. Isso contrasta com o passado, quando um cancelamento frequentemente resultava em consequências mais severas, como a perda de seguidores e renda. Govari destaca: “Embora a ideia de cancelamento como sentença definitiva tenha se enfraquecido, as disputas de reputação e a pressão pública continuam muito presentes”. O termo “cultura do cancelamento” foi reconhecido como expressão do ano pelo dicionário australiano Macquarie em 2019, e uma pesquisa da YouGov revelou que, em 2020, 50% dos entrevistados nos Estados Unidos admitiram já ter “cancelado” alguém.

O impacto da pandemia e a rotina digital

Maiara Orlandini, outra especialista no tema, observa que a prática do cancelamento se tornou mais comum à medida que a sociedade se tornou mais conectada. Desde 2022, a verificação de contas nas redes sociais passou a ser acessível mediante pagamento, alterando a dinâmica de influência digital. “No início dos anos 2000, as mobilizações políticas digitais eram menos frequentes, e o uso da internet não era tão disseminado”, explica Orlandini. Em 2025, o IBGE revelou que 90,5% dos brasileiros com 10 anos ou mais usaram a internet, totalizando 168,7 milhões de usuários. A percepção de que os linchamentos virtuais perderam força pode estar relacionada a mudanças no comportamento dos internautas. Durante a pandemia de Covid-19, o tempo de exposição dos brasileiros às telas aumentou de 6,5 para 10,5 horas diárias, conforme pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais.

A biblioteconomista Dulce Hirli, que estudou o tema para seu mestrado, sugere que a volta à normalidade após o isolamento social pode ter influenciado a sensação de que a cultura do cancelamento está em declínio. “Com a retomada da rotina, a vida social voltou, e as pessoas não estão tão imersas nas plataformas como antes”, reflete. Entretanto, o fenômeno do cancelamento possui características duradouras, como os “rastros digitais eternizados”, que podem ressurgir a qualquer momento. Um exemplo disso ocorreu com o cantor MC Livinho, que enfrentou uma nova onda de críticas após uma apresentação, quando uma acusação de racismo feita em 2020 voltou a ser discutida nas redes sociais. Um levantamento de 2025 da YouGov revelou que 51% dos americanos acreditavam que a cultura do cancelamento havia ido longe demais.

Especialistas apontam que a rapidez com que esses episódios surgem e desaparecem está relacionada à teoria da economia da atenção, que afirma que o interesse do público é limitado e que as plataformas competem por essa atenção. Govari explica que “houve uma rotinização do cancelamento, que agora é utilizado para uma gama de situações, desde denúncias graves até controvérsias efêmeras, o que pode causar uma sensação de banalização”. Dessa forma, a simultaneidade de críticas a diferentes figuras públicas dificulta a manutenção do foco em um único caso.

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