Uma enchente repentina devastou o norte do Nepal nesta quarta-feira, 26.ago.2026, após uma avalanche de gelo e rochas atingir a bacia do rio Lhende, perto da fronteira com o Tibete. O balanço oficial mais recente aponta 100 mortos e centenas de desaparecidos.
Polícia atualiza número de mortos para 100
A Polícia do Nepal informou às 20h30, no horário local, que 100 corpos haviam sido encontrados em sete distritos atingidos pela cheia. O balanço anterior era de 95 mortos.
Segundo a atualização oficial, foram recuperados 33 corpos em Chitwan, 19 em Gorkha, 18 em Dhading, 11 em Nuwakot, 11 em Nawalparasi East, sete em Tanahun e um em Rasuwa. Parte das vítimas ainda não havia sido identificada.
O Escritório do Primeiro-Ministro informou, em balanço divulgado no início da noite, que 484 turistas e peregrinos estavam sem contato. Desse total, 391 são estrangeiros e 93 nepaleses. Há ainda policiais, militares, trabalhadores de usinas hidrelétricas e servidores de postos de fronteira entre os desaparecidos.
A própria Polícia do Nepal informou que 28 agentes lotados em diferentes unidades de Rasuwa continuavam sem contato. Como as listas estão sendo atualizadas por diferentes órgãos, o número total de desaparecidos ainda é tratado como provisório.
Avalanche de gelo e rochas atingiu sistema do rio Lhende
A Autoridade Nacional de Redução e Gestão de Riscos de Desastres do Nepal informou que uma avalanche envolvendo gelo, rochas e sedimentos ocorreu na área do rio Lhende, cerca de 20 quilômetros a nordeste do posto de fronteira de Rasuwagadhi.
Imagens de satélite da Planet Labs analisadas por especialistas indicam que parte inferior de uma geleira se desprendeu a cerca de 5.200 metros de altitude e caiu aproximadamente 1.200 metros até o fundo do vale. O material desceu com grande volume de rochas e sedimentos.
A principal hipótese é que os detritos tenham bloqueado temporariamente o curso do rio, acumulando água até o rompimento da barreira natural. A onda avançou pelos sistemas dos rios Bhote Koshi e Trishuli, carregando lama, pedras e estruturas.
Segundo o Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas, o nível da água em Galchhi, rio abaixo, teria subido até nove metros em cerca de 30 minutos.
Terremoto ocorreu minutos antes, mas ligação ainda não está provada
Um terremoto de magnitude 4,4 foi registrado na região poucos minutos antes da enchente. Autoridades nepalesas investigam se o tremor contribuiu para desestabilizar a geleira e provocar a avalanche.
O Centro Alemão de Pesquisa em Geociências registrou o terremoto aproximadamente sete minutos antes do horário mostrado em imagens de segurança que captaram a chegada da onda de lama e água na fronteira.
Até agora, porém, os especialistas não estabeleceram uma relação direta entre o tremor e o colapso. Também está em análise o possível efeito das temperaturas mais altas e do derretimento recente da neve na estabilidade da geleira.
A definição da sequência exata — tremor, colapso de gelo, bloqueio do rio e rompimento da barreira — depende de novas análises de satélite e dados de campo.
Rasuwa concentra destruição e operações de resgate
O distrito de Rasuwa, no norte do Nepal, está entre os pontos mais atingidos. Casas, mercados, estradas, pontes, instalações de fronteira e estruturas ligadas a projetos hidrelétricos foram destruídos ou cobertos por lama e detritos.
O acesso terrestre continua limitado em vários locais. O nível elevado dos rios impediu o pouso de helicópteros em áreas como Syapru Besi e Timure durante parte das operações, enquanto quedas de energia e falhas de comunicação dificultaram o contato com comunidades isoladas.
A Polícia do Nepal reforçou as buscas com equipes especializadas, quatro drones e um grupo médico de 22 profissionais enviado para Rasuwa. Autoridades também orientaram moradores a não permanecer em margens de rios e outras áreas consideradas de risco.
A região recebe turistas e peregrinos em deslocamento para Kailash Manasarovar, no Tibete, além de praticantes de trekking. Esse fluxo ajuda a explicar o grande número de estrangeiros ainda sem contato.
Tibete também registra mortos e desaparecidos
O desastre atingiu o outro lado da fronteira. A emissora estatal chinesa CCTV informou que pelo menos três pessoas morreram e 265 estavam desaparecidas em Gyirong, no Tibete. As autoridades chinesas afirmaram que o balanço ainda estava sendo verificado.
Estradas, redes de energia e comunicações também foram interrompidas no lado chinês. Equipes militares e de emergência foram mobilizadas com drones, helicópteros e aeronaves para avaliar os danos e ampliar as buscas.
Mudanças nas geleiras entram na investigação
O Himalaia vem registrando perda acelerada de gelo nas últimas décadas. Dados das Nações Unidas citados pela Reuters indicam que as montanhas nevadas do Nepal perderam quase um terço do gelo em pouco mais de 30 anos, com aceleração do derretimento na década mais recente.
Isso não permite concluir, neste momento, que a mudança climática tenha causado diretamente a tragédia desta quarta-feira. Pesquisadores avaliam se o aquecimento recente, a quantidade de neve derretida, a geologia local e o terremoto contribuíram para o colapso.
As buscas devem continuar durante a quinta-feira, 27.ago.2026. O principal ponto de atenção é localizar os desaparecidos, identificar as vítimas e monitorar os rios diante do risco de novas cheias na região.


