Entre janeiro e julho de 2023, o iFood registrou 1.188 relatos de violência contra seus entregadores, o que resulta em uma média de 5,6 ocorrências diárias. Os casos de discriminação e ameaça lideram as denúncias recebidas pela central de apoio aos trabalhadores. Outras plataformas de entrega também têm enfrentado relatos semelhantes.
Dos quase 1,2 mil casos de violência reportados, cerca de 300 especificaram a motivação das agressões. Destes, três em cada quatro referem-se a discriminação e ameaças, enquanto um quarto diz respeito a agressões físicas. É importante destacar que em uma única queixa podem ser mencionados múltiplos tipos de reclamação.
Relatos de agressões
- Em março, um motoboy foi alvo de ofensas por um cliente em Brasília, que o chamou de “moleque” durante uma discussão sobre uma entrega que alegava estar incorreta.
- No Metrô Santo Amaro, em São Paulo, entregadores relataram incidentes de violência e ameaças por parte de agentes de segurança, ocorridos em janeiro.
- Em Fortaleza, uma briga por pagamento resultou em um entregador com ferimentos na cabeça, levando a categoria a reagir com revolta.
- Em Goiânia, uma servidora do Tribunal de Justiça agrediu um motoboy com tapas no rosto após um desentendimento sobre uma entrega, em novembro.
Estatísticas de violência
Em resposta à violência, o iFood aplicou cerca de 1.600 sanções a clientes e estabelecimentos durante o período analisado.
Casos de repercussão
A violência contra entregadores tem gerado repercussão significativa no Brasil. Em 31 de julho de 2020, o motoboy Matheus Pires Barbosa, de 19 anos, foi alvo de ofensas racistas em Valinhos, São Paulo, durante uma entrega. Após uma discussão, o cliente proferiu ataques raciais e socieconômicos, resultando em grande comoção. Matheus, que atualmente é empresário, viu o agressor ser banido do aplicativo e processado, embora tenha sido absolvido em tribunal após alegar problemas de saúde mental.
Outro caso emblemático ocorreu em abril de 2023, quando a ex-atleta Sandra Mathias agrediu um entregador com uma guia de cachorro, chamando-o de termos pejorativos. Sandra foi condenada a quatro anos de prisão em regime aberto, e um processo cível para indenização das vítimas está previsto para ser julgado ainda este ano.
Embora a maioria dos relatos envolva entregadores como vítimas, existem também casos de agressões perpetradas por eles. Um incidente em dezembro de 2022 em Brasília, onde um porteiro foi agredido por um motoboy, evidencia a complexidade da situação.
Dados do IBGE sobre trabalhadores por aplicativo
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou em 4 de outubro de 2023 que o Brasil possui 1,959 milhão de trabalhadores atuando por meio de aplicativos, dos quais 585 mil se dedicam à entrega de alimentos e produtos, e 376 mil são identificados especificamente como entregadores.
Diante do aumento dos casos de violência, o iFood implementou uma Política de Combate à Discriminação e Violência, oferecendo apoio psicológico e jurídico gratuito aos entregadores. O diretor de Impacto Social do iFood, Johnny Borges, enfatiza a importância de não deixar os trabalhadores sozinhos em situações de discriminação e violência, e acredita que a conscientização da sociedade é fundamental para a redução dessas ocorrências.
Compromisso de outras plataformas
A 99 Food também declarou adotar uma política de tolerância zero em relação a discriminação e violência, com uma Central de Segurança disponível 24 horas para suporte às vítimas. Após receber denúncias, uma equipe especializada investiga os casos, oferecendo assistência médica e psicológica conforme necessário.
A Keeta, por sua vez, informou que mantém uma central de segurança que presta suporte em incidentes envolvendo entregadores, comprometendo-se a investigar todas as queixas e a tomar as devidas providências conforme suas políticas internas.

