O episódio da paca não seria, sozinho, uma crise política. O problema é que ele encaixa perfeitamente num padrão já conhecido: Janja volta ao centro do debate por um gesto de forte apelo simbólico, a discussão explode nas redes e o governo perde o controle do foco.
Desta vez, a reação veio da direita, mas também de setores progressistas, porque o ruído mistura imagem pública, sensibilidade ambiental e exposição desnecessária da vida presidencial.
O caso começou depois de Janja publicar o preparo de carne de paca no almoço de Páscoa de 5 de abril. Depois da repercussão, ela afirmou que a carne era presente de “produtor legalizado”.
Pela legislação ambiental, a caça de animal silvestre é proibida, mas a comercialização pode ocorrer quando a origem é de criadouros devidamente autorizados. Ou seja: o ponto jurídico depende da procedência comprovada, não da espécie em si. Politicamente, porém, o estrago já estava feito antes mesmo de qualquer esclarecimento técnico.
É aí que a paca deixa de ser só uma pauta de costume e vira sintoma de desgaste.
Janja já havia sido criticada por ultrapassar a fronteira simbólica do papel de primeira-dama, como no episódio do xingamento a Elon Musk, e essa sequência consolidou uma percepção pública mais ampla de interferência, excesso e improviso.
Não por acaso, pesquisa Datafolha de junho de 2025 mostrou que 36% diziam que ela atrapalhava o governo, contra 14% que viam ajuda. Quando um personagem sem cargo eletivo passa a produzir mais contenção do que ativos para o Planalto, o custo recai no presidente.
No fim, a crise não é gastronômica nem ambiental por si só; é de hierarquia política.
O governo Lula continua tratando Janja como ativo espontâneo num momento em que parte do eleitorado já a lê como vetor de ruído — e isso transforma qualquer gesto doméstico em desgaste de governo.

