A fala da desembargadora Eva do Amaral Coelho, do TJPA, viralizou porque transformou uma disputa remuneratória em drama social. Ao dizer, em sessão de 9 de abril, que juízes poderiam deixar de pagar consultas, remédios e contas e caminhar para um “regime de escravidão”, a magistrada elevou o tom num debate que já vinha sensível após o STF apertar o cerco sobre auxílios e verbas extras.
O pano de fundo é real: o Supremo reafirmou o teto constitucional de R$ 46.366,19 para a magistratura e vedou a criação de novas parcelas e auxílios sem base em lei federal. A decisão também mirou licenças compensatórias e outras rubricas usadas para empurrar a remuneração acima do teto, embora tenha mantido exceções como 13º, terço de férias, abono de permanência e indenizações previstas em lei. Ou seja: houve contenção, mas não uma ruptura com toda a engenharia de vantagens que marcou esse debate nos últimos anos.
O exagero aparece quando a retórica encontra os próprios dados públicos. Segundo a Itatiaia, com base no Portal da Transparência, Eva do Amaral Coelho recebeu em março remuneração bruta de R$ 117.863,72 e líquida de R$ 91.211,82. No mesmo tribunal, o edital do concurso para juiz substituto fixa subsídio inicial de R$ 35.877,26. Não se trata, portanto, de carreira com vencimento baixo ou incompatível com despesas básicas. A discussão concreta é outra: quanto da renda da magistratura continuará vindo de parcelas adicionais fora do subsídio principal.
A reação nas redes veio justamente desse contraste. Quando uma integrante do alto escalão do Judiciário compara perda de penduricalhos a “escravidão”, a frase deixa de funcionar como defesa corporativa e passa a reforçar a percepção pública de privilégio. Num momento em que STF e CNJ tentam reorganizar a folha e conter supersalários, esse tipo de declaração pesa mais contra a imagem da magistratura do que a favor dela.

