O problema não está só no valor dos supersalários do Judiciário. Está também na criatividade das rubricas.
Auxílio-peru, auxílio-creche, auxílio-moradia, auxílio-livro, licença-compensatória em dinheiro e até o folclórico “auxílio-paletó” viraram símbolos de um sistema que aprendeu a contornar o teto sem admitir que o contornou.
Nem toda verba extra é ilegal. O abuso começa quando benefício eventual vira complemento fixo de renda, muitas vezes tratado como indenização para escapar do limite constitucional.
O nome muda, mas o efeito é o mesmo: contracheques turbinados por fora da regra que vale para o resto do serviço público.
O auxílio-peru talvez seja o apelido mais caricatural desse modelo.
O auxílio-livro também entrou para a vitrine dos exageros, ao lado do auxílio-creche e do auxílio-moradia, verbas que, em vez de cobrirem despesas específicas, passaram a simbolizar uma cultura de privilégios.
Já a licença-compensatória em dinheiro virou a versão mais sofisticada do velho truque brasileiro: chamar de compensação o que funciona como aumento.
No fim, o escândalo não é só contábil. É moral e institucional. Quando o teto existe apenas para quem está fora do topo, ele deixa de ser teto. Vira decoração.

