No primeiro trimestre da safra 2026/27, o crédito rural alinhado à sustentabilidade registrou uma queda de R$ 3,6 bilhões, totalizando R$ 17,5 bilhões.
Apesar da diminuição em valores absolutos, sua participação no total de custeio e investimento aumentou de 22,8% para 26,3%. As contratações totais de crédito rural recuaram 28,8%, atingindo R$ 80,7 bilhões, conforme aponta um boletim da Agroicone baseado em dados do Banco Central.
Os valores considerados como alinhados à jornada de sustentabilidade, conforme a metodologia da Agroicone, incluem R$ 12,4 bilhões destinados ao custeio da produção e R$ 5,1 bilhões para investimentos. No que diz respeito à divisão por atividade, a agricultura foi responsável por R$ 15,8 bilhões, enquanto a pecuária recebeu R$ 1,7 bilhão.
Detalhes do financiamento sustentável
Os produtos associados ao financiamento sustentável somaram R$ 13,7 bilhões, representando 78,3% do total. Essa categoria considera todo o valor de um contrato como alinhado à sustentabilidade quando ao menos um dos produtos financiados atende a essa característica. O melhoramento de solos ficou em segundo lugar, com R$ 2,3 bilhões, ou 13,4% do total.
Nos investimentos, o maior volume foi direcionado à correção intensiva do solo, com R$ 1,4 bilhão, seguido por pastagens, que receberam R$ 578,2 milhões, e máquinas e implementos, com R$ 456,2 milhões. Em relação ao custeio, a soja concentrou R$ 5,2 bilhões, enquanto milho e café receberam R$ 2,1 bilhões cada.
No que se refere às fontes de financiamento, os recursos obrigatórios lideraram com R$ 5 bilhões. As Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) controladas com subvenção econômica somaram R$ 4,5 bilhões, enquanto o Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE) contabilizou R$ 1,9 bilhão. Na comparação anual, os recursos da poupança rural controlada com subvenção econômica cresceram 33,6%, e as contratações com recursos do FNE aumentaram 32,2%. No entanto, o financiamento do BNDES/Finame com equalização caiu 27,7%.
Em termos regionais, o Rio Grande do Sul liderou o volume de crédito enquadrado na metodologia, com R$ 4,5 bilhões. Os estados que se seguiram foram Paraná (R$ 2,2 bilhões), Minas Gerais (R$ 2 bilhões), Espírito Santo (R$ 1,4 bilhão) e Mato Grosso (R$ 1,1 bilhão).
Agricultura familiar e sustentabilidade
O boletim também destaca que, pela primeira vez na série histórica analisada, o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) liderou as contratações em créditos com finalidade sustentável, totalizando R$ 978,3 milhões. O Pronaf Bioeconomia foi o destaque, com R$ 925 milhões. Para os produtores não familiares, o RenovAgro e outros subprogramas somaram R$ 974,8 milhões, sendo que a linha de Recuperação e Conversão concentrou R$ 268,5 milhões, representando 27,5% do total.
Comparando com o primeiro trimestre da safra anterior, as linhas sustentáveis do Pronaf tiveram um aumento nominal de R$ 129,1 milhões. Em contrapartida, as contratações do RenovAgro e outros subprogramas voltados aos produtores não familiares caíram R$ 725 milhões. A participação dos subprogramas sustentáveis no total de investimentos contratados aumentou 3,42 pontos percentuais no Pronaf e 0,65 ponto percentual entre os produtores não familiares.
Desafios para o financiamento sustentável
Os pesquisadores da Agroicone alertam que a redução do financiamento sustentável em valores absolutos é um ponto de atenção, mesmo com o aumento de sua participação relativa. A continuidade da restrição financeira pode dificultar o investimento em práticas que visam reduzir as emissões de carbono e aumentar a resiliência da produção às mudanças climáticas. Leila Harfuch, sócia da Agroicone, enfatiza que a transição para uma agropecuária de baixa emissão de carbono exige capital intensivo.
Harfuch destaca a importância de mecanismos que mitigam os riscos de crédito e climáticos, como o seguro rural, além de alternativas para reestruturação de dívidas, para manter a capacidade de investimento dos produtores. O boletim alerta que, sem um financiamento adequado, a adoção de práticas sustentáveis pode desacelerar, impactando a competitividade e a segurança das cadeias produtivas agropecuárias no Brasil a médio e longo prazos.
Contexto do crédito rural
A retração do financiamento se dá em um cenário de aumento do endividamento dos produtores e restrição de liquidez. A Agroicone aponta que a deterioração da carteira de crédito rural afetou a percepção de risco das instituições financeiras, impactando as decisões de financiamento, inclusive na agricultura familiar. No primeiro trimestre analisado, foram registradas 562 mil operações de crédito rural, uma queda em relação às 717 mil do mesmo período do ano anterior.
No Pronaf, as contratações totalizaram R$ 22,7 bilhões em 480 mil operações, abaixo dos R$ 23,9 bilhões em 591 mil operações do ano anterior. Entre os produtores não familiares, o volume de crédito contratado foi de R$ 58 bilhões, comparado a R$ 140,9 bilhões no mesmo período da safra 2023/24, com uma redução significativa no número de operações, que caiu de 194 mil para 81,5 mil.
A consultoria relaciona a queda no crédito à piora dos indicadores de qualidade da carteira rural, observando que o saldo de operações problemáticas aumentou de R$ 34,1 bilhões em julho de 2023 para R$ 188,8 bilhões em abril de 2026. Simultaneamente, a inadimplência efetiva cresceu de R$ 3,8 bilhões para R$ 38,4 bilhões.
As dificuldades financeiras têm levado os produtores a utilizar recursos próprios para novos plantios ou a deixar de amortizar parcelas de empréstimos anteriores, o que pode agravar o endividamento. Além disso, a maior aversão ao risco reduz o acesso a fontes privadas de financiamento. As emissões de Cédulas de Produto Rural (CPRs), que possuem regras diferentes do crédito rural tradicional, somaram R$ 50,3 bilhões no primeiro trimestre da safra 2026/27, inferior aos R$ 68,3 bilhões do mesmo período do ciclo anterior.


