Campanha de 2026 enfrenta queda de engajamento e disputa por atenção nas redes

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Candidatos ampliam presença digital, mas interações se concentram em poucos perfis que já chegam à eleição com audiência própria e linguagem de influenciador

A campanha eleitoral de 2026 começou com um desafio que se repete entre candidatos ao governo, à Câmara dos Deputados e às assembleias legislativas: transformar presença nas redes sociais em engajamento real.

Depois de ciclos eleitorais marcados pelo crescimento acelerado da comunicação política no ambiente digital, como 2018, 2020 e 2022, campanhas encontram hoje uma disputa mais intensa por curtidas, comentários, compartilhamentos e visualizações orgânicas.

Os dados de eleições recentes mostram que essa audiência está cada vez mais concentrada em poucos nomes capazes de atuar também como influenciadores digitais.

Levantamento da FGV Comunicação Rio sobre as eleições municipais de 2024 apontou que o Instagram respondeu por 92% das interações registradas entre candidatos às prefeituras das capitais. A distribuição, porém, foi desigual.

Em São Paulo, Pablo Marçal, que já possuía grande audiência digital antes da campanha, concentrou cerca de 80% das interações observadas no Instagram entre os candidatos analisados.

VÍDEOS CURTOS CONCENTRAM A AUDIÊNCIA

O formato das publicações também passou a influenciar diretamente o desempenho.

Outro levantamento da FGV mostrou que, no primeiro turno de 2024, os Reels representaram 69,9% das publicações dos candidatos no Instagram e responderam por 91,6% de todo o engajamento registrado na plataforma.

O dado mostra como vídeos curtos, cortes de entrevistas, confrontos, humor e conteúdo produzido na linguagem das redes ganharam vantagem sobre modelos tradicionais de comunicação eleitoral.

Fotos de reuniões, agendas de campanha, discursos longos, caminhadas e peças com estética de propaganda continuam presentes, mas enfrentam dificuldade maior para circular fora da base já ligada ao candidato.

ESTAR NAS REDES DEIXOU DE SER DIFERENCIAL

Em 2026, praticamente todos os candidatos relevantes mantêm presença digital.

Entre os 7.679 candidatos registrados para deputado federal, 5.493 informaram utilizar o Instagram durante a campanha, o equivalente a 72% do total. Como alguns possuem mais de uma conta, foram declarados 5.973 perfis na plataforma.

A quantidade ajuda a dimensionar o volume de conteúdo eleitoral disputando espaço diariamente no feed dos usuários.

Em eleições anteriores, possuir uma estrutura profissional de redes sociais ainda poderia representar vantagem competitiva. Agora, esse recurso tornou-se comum.

A diferença está na capacidade de alcançar pessoas que não acompanham diretamente a campanha.

POLÍTICOS COM PERFIL DE CELEBRIDADE SAEM NA FRENTE

Quem construiu uma comunidade digital antes da eleição começa a disputa com vantagem.

São políticos, comunicadores, empresários, escritores ou figuras públicas que publicam conteúdo diariamente, aparecem em programas, participam de debates e possuem audiência que não depende exclusivamente do período eleitoral.

A campanha presidencial de 2026 oferece um exemplo recente.

Augusto Cury, candidato pelo Avante e escritor conhecido nacionalmente antes de entrar na corrida presidencial, ganhou aproximadamente 2,5 milhões de seguidores no Instagram em cerca de uma semana após o debate da Band, realizado em 23 de agosto.

Trechos de suas participações passaram a circular em perfis de terceiros e alcançaram milhões de visualizações. No mesmo período, Cury avançou nas pesquisas de intenção de voto.

O movimento mostra a força de candidatos que conseguem transformar uma participação política em conteúdo distribuído por usuários, páginas e influenciadores que não pertencem diretamente à estrutura oficial da campanha.

ALGORITMOS TAMBÉM MUDARAM O JOGO

As plataformas utilizadas em 2026 também são diferentes daquelas encontradas nas eleições de 2018.

A Meta passou, a partir de 2021, a reduzir a presença automática de conteúdo político no Facebook e no Instagram após pesquisas internas indicarem que parte dos usuários queria receber menos publicações desse tipo.

Nos anos seguintes, a empresa modificou novamente a política e passou a adotar uma distribuição mais personalizada, levando em consideração sinais de interesse apresentados por cada usuário.

Na prática, ter milhares de seguidores não significa que todos receberão uma publicação de campanha.

Retenção do vídeo, compartilhamentos, comentários, histórico de interação e interesse prévio do usuário influenciam a distribuição do conteúdo.

CANDIDATO DISPUTA ESPAÇO COM ENTRETENIMENTO

A competição também deixou de ocorrer apenas entre políticos.

Um candidato disputa a tela do celular com vídeos de humor, futebol, celebridades, música, notícias, viagens, gastronomia, entretenimento e milhares de criadores profissionais.

Isso altera a lógica da comunicação eleitoral.

Para chegar a pessoas fora do público politizado, campanhas precisam produzir conteúdo capaz de competir no mesmo ambiente de atenção em que circulam influenciadores e celebridades.

Por isso, candidatos que já utilizam linguagem de entretenimento, opinião ou comunicação pessoal conseguem, em muitos casos, gerar maior circulação orgânica do que aqueles que mantêm um modelo convencional de propaganda.

A BATALHA AGORA É PELA ATENÇÃO

A eleição de 2018 marcou a consolidação das redes sociais como uma alternativa poderosa à televisão e aos meios tradicionais de campanha.

Oito anos depois, a presença digital deixou de ser novidade.

Candidatos, partidos e equipes profissionais estão nas mesmas plataformas, publicam diariamente e utilizam ferramentas semelhantes.

O problema mudou.

Em 2026, o desafio não é apenas estar nas redes. É fazer com que alguém pare para assistir, interaja e decida compartilhar aquele conteúdo.

Os próximos meses mostrarão quais campanhas conseguirão romper a audiência formada apenas por apoiadores e alcançar eleitores que normalmente não procuram conteúdo político.

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