Desafios econômicos de Trump em 2024: Crescimento versus percepção popular

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Em 2024, Donald Trump utiliza a insatisfação com o custo de vida como uma poderosa arma contra os democratas. Contudo, o ex-presidente enfrenta um dilema: precisa justificar sua posição em uma economia que, embora continue a crescer, não reflete melhorias nas condições materiais de muitos norte-americanos.

Esse paradoxo ajuda a elucidar por que os índices de atividade econômica e a avaliação pública do governo apresentam narrativas tão distintas.

Dados econômicos recentes

Nesta quinta-feira, novos dados econômicos revelaram uma camada adicional à contradição. O PIB dos Estados Unidos cresceu 3,4% em ritmo anualizado no terceiro trimestre, superando os 2,2% do trimestre anterior. Esse crescimento foi impulsionado por um aumento no consumo e nos investimentos empresariais, especialmente na área de inteligência artificial. Esses números não indicam uma economia em colapso, mas não refletem, isoladamente, a realidade da renda disponível das famílias.

Em setembro, a inflação ao consumidor atingiu 3,7% em um período de doze meses, enquanto os salários nominais por hora aumentaram 3%. No entanto, ao considerar a inflação, a remuneração média real caiu 0,7% nesse período. O mercado de trabalho também mostrou sinais de desaceleração, com apenas 29 mil novas vagas criadas em setembro, embora a taxa de desemprego tenha permanecido relativamente baixa, em 4,2%.

A percepção do eleitor e o impacto da inflação

Essas informações são cruciais, pois os eleitores não avaliam sua situação financeira apenas com base na quantidade de empregos disponíveis ou no crescimento geral da economia. O poder de compra, o custo do crédito e a capacidade de manter um determinado padrão de vida são igualmente importantes. Mesmo uma desaceleração da inflação não implica necessariamente em preços menores, mas sim em aumentos menos acentuados. Em 2024, o problema é que a inflação voltou a acelerar.

O índice de confiança do consumidor, medido pela Universidade de Michigan, caiu para 48 pontos em outubro, cerca de 10% abaixo do índice do ano anterior. O elevado custo de bens duráveis e as condições de financiamento continuam a pesar sobre as avaliações das famílias.

Uma questão delicada nesse contexto é que parte das pressões inflacionárias está relacionada a políticas que Trump promoveu como formas de fortalecer a economia nacional. Embora as tarifas de importação tenham sido defendidas como uma maneira de proteger a indústria local, seus efeitos são mais complexos. Um estudo do Federal Reserve de Nova York, publicado em setembro, estimou que aproximadamente 26% do aumento das tarifas analisadas foram repassados aos preços ao consumidor, muitas vezes de forma indireta.

Esse encarecimento não se limita apenas aos produtos importados. Empresas americanas que dependem de componentes estrangeiros enfrentam custos mais altos, enquanto produtores locais podem elevar seus preços quando seus concorrentes internacionais perdem competitividade. Esses efeitos podem levar meses para se manifestar nas cadeias produtivas, resultando em custos que afetam consumidores e outras empresas americanas.

A guerra com o Irã também introduziu novas pressões. Em setembro, o preço da gasolina subiu 9,1%, respondendo por mais da metade do aumento mensal do índice geral de inflação. O conflito impacta a oferta e as expectativas no mercado internacional de energia, aumentando custos que se disseminam por transporte, produção e consumo. Embora não se possa atribuir toda a inflação às decisões de Washington, é evidente que a política externa influencia diretamente a situação financeira dos eleitores.

O Federal Reserve enfrenta o desafio adicional de conter a inflação sem comprometer a atividade econômica. Com a inflação ainda acima da meta de 2%, a instituição manteve os juros básicos entre 3,75% e 4%. Para as famílias que precisam financiar a compra de casa, automóveis ou gerenciar dívidas, a combinação de preços altos e crédito caro prolonga a sensação de aperto financeiro.

Além disso, a questão distributiva é significativa. O dinamismo dos investimentos em tecnologia e a valorização de ativos financeiros beneficiam desigualmente uma sociedade com grandes disparidades de renda e patrimônio. O crescimento sustentado pelo consumo das famílias mais abastadas pode coexistir com desafios crescentes para aquelas que dependem principalmente dos salários. Esses fenômenos ocorrem na mesma economia, mas resultam em experiências muito diferentes.

Politicamente, a atribuição de responsabilidade é um tema crucial. Uma pesquisa da Reuters/Ipsos, divulgada em outubro, mostrou que 78% dos norte-americanos responsabilizam, ao menos em parte, as políticas de Trump pelo aumento do custo de vida, inclusive 64% dos republicanos. Entre os entrevistados desse partido, 57% relataram que suas despesas cresceram mais rapidamente que seus salários.

Esses dados não garantem que a insatisfação econômica se translate automaticamente em votos para os democratas. As preferências partidárias, as candidaturas locais e outras prioridades ainda influenciam o comportamento eleitoral. Contudo, indicam que a Casa Branca enfrenta dificuldades em sustentar a narrativa de que o crescimento econômico, por si só, é um indicativo do sucesso de suas políticas.

A vulnerabilidade de Trump é particularmente relevante, uma vez que sua vitória em 2024 foi impulsionada pela percepção de que os democratas haviam perdido o contato com as dificuldades econômicas da população. Ao assumir a presidência, ele herdou não apenas problemas estruturais, mas também a expectativa de resolvê-los rapidamente, e suas próprias escolhas acrescentaram novos elementos a essa equação.

Nas próximas eleições, a economia não será avaliada apenas pela produção, mas pela distribuição de seus resultados, pelos custos que os eleitores reconhecem em suas despesas e a quem atribuem a responsabilidade por esses aumentos. Trump ainda terá números de crescimento para apresentar, mas o desafio será convencer os norte-americanos de que a prosperidade anunciada em Washington também chegou até suas casas.

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